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8.1.18

SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

A rainha-mãe nem melhorou nem piorou, ficou ali como suspensa, baloiçando o frágil corpo à borda da vida, ameaçando a cada instante cair para o outro lado, mas atada a este por um ténue fio que a morte, só podia ser ela, não se sabe por que estranho capricho, continuava a segurar.

A confiada repórter laborava no mais grave dos enganos, porquanto havia interpretado as palavras da sua fonte informativa como significando que o moribundo, em sentido literal, se tinha arrependido do passo que estava prestes a dar, isto é, morrer, defuntar, esticar o pernil, e portanto resolvera fazer marcha atrás.

Mal podiam imaginar, porém, ele e ela, que a tal frase, repetida em directo pelo entrevistado e novamente escutada em gravação no telejornal da noite, iria ser compreendida da mesma equivocada maneira por milhões de pessoas, o que virá a ter como desconcertante consequência, num futuro muito próximo, a criação de um movimento de cidadãos firmemente convencidos de que pela simples acção da vontade será possível vencer a morte e que, por conseguinte, o imerecido desaparecimento de tanta gente no passado só se tinha devido a uma censurável debilidade de volição das gerações anteriores.

Estava justamente a dar a meia-noite, disse ele, quando o meu avô, que parecia mesmo a ponto de finar-se, abriu de repente os olhos antes que soasse a última badalada no relógio da torre, como se se tivesse arrependido do passo que ia dar, e não morreu.

Mas o conhecido impulso de recomendar tranquilidade às pessoas a propósito de tudo e de nada, de as manter sossegadas no redil seja como for, esse tropismo que nos políticos, em particular se são governo, se tornou numa segunda natureza, para não dizer automatismo, movimento mecânico, levou-o a rematar a conversa da pior maneira,

Eminência, por favor, creia-me, foi uma simples frase de efeito destinada a impressionar, um remate de discurso, nada mais, bem sabe que a política tem destas necessidades, Também a igreja as tem, senhor primeiro-ministro, mas nós ponderamos muito antes de abrir a boca, não falamos por falar, calculamos os efeitos à distância, a nossa especialidade, se quer que lhe dê uma imagem para compreender melhor, é a balística.

Devolvo-lhe a pergunta, que vai fazer o estado se nunca mais ninguém morrer, O estado tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide de que o venha a conseguir, mas a igreja, A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a realidade as contradiga, Desde o princípio que nós não temos feito outra cousa que contradizer a realidade, e aqui estamos,

À igreja nunca se lhe pediu que explicasse fosse o que fosse, a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso.

Quem não puser a imortal bandeira da pátria à janela da sua casa, não merece estar vivo, Aqueles que não andarem com a bandeira nacional bem à vista é porque se venderam à morte, Junte-se a nós, seja patriota, compre uma bandeira, Compre outra, Compre mais outra, Abaixo os inimigos da vida, o que lhes vale a eles é já não haver morte.

Importantes sectores profissionais, seriamente preocupados com a situação, já começaram a fazer chegar a quem de direito a expressão do seu descontentamento. Como seria de esperar, as primeiras e formais reclamações vieram das empresas do negócio funerário. Brutalmente desprovidos da sua matéria-prima, os proprietários começaram por fazer o gesto clássico de levar as mãos à cabeça, gemendo em carpideiro coro.

As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca.

Tem razão, senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação, O paraíso, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu.

É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra.

Pela milésima vez jornais bem pensantes que actuavam como barómetros da moralidade pública apontaram o dedo à imparável degradação dos valores tradicionais da família, fonte, causa e origem de todos os males em sua opinião,

A oposição vai atacar-nos com a maior violência, acusar-nos-ão de ter vendido o país à máphia, Não dirão país, dirão pátria.

Infelizmente, quando se avança às cegas pelos pantanosos terrenos da realpolitik, quando o pragmatismo toma conta da batuta e dirige o concerto sem atender ao que está escrito na pauta, o mais certo é que a lógica imperativa do aviltamento venha a demonstrar, afinal, que ainda havia uns quantos degraus para descer.

Através do ministério competente, o da defesa, chamado da guerra em tempos mais sinceros.

Uma criança, já o havíamos dito antes, poderia ter tido a ideia. A qual não era senão isto, passar para o outro lado da fronteira o padecente e, uma vez falecido ele, voltar para trás e enterrá-lo no materno seio da sua terra de origem. Um xeque-mate perfeito no mais rigoroso, exacto e preciso sentido da expressão.

Perguntou ao aprendiz de filósofo, Já pensaste se a morte será a mesma para todos os seres vivos, sejam eles animais, incluindo o ser humano, ou vegetais, incluindo a erva rasteira que se pisa e a sequoiadendron giganteum com os seus cem metros de altura, será a mesma a morte que mata um homem que sabe que vai morrer, e um cavalo que nunca o saberá.

Aí está uma palavra que soa bem, cheia de promessas e certezas, dizes metamorfose e segues adiante, parece que não vês que as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como são as cousas, cada um de vós tem a sua própria morte, transporta-a consigo num lugar secreto desde que nasceu, ela pertence-te, tu pertences-lhe, E os animais, e os vegetais, Suponho que com eles se passará o mesmo, Cada qual com a sua morte, Assim é, Então as mortes são muitas, tantas como os seres vivos que existiram, existem e existirão.

Com que dinheiro o país, dentro de uns vinte anos, mais ponto, menos vírgula, pensava poder pagar as pensões aos milhões de pessoas que se encontrariam em situação de reformados por invalidez permanente e que assim iriam continuar por todos os séculos dos séculos?

VERÍSSIMO, Érico. Um certo capitão Rodrigo. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 184 p.

— Não. Religião nunca me fez falta. — Há pessoas que só se lembram da Virgem quando troveja. — Quando troveja me lembro do meu poncho.

— Mas vosmecê nunca pensa em Deus? — Uma vez que outra. — Não reconhece que Ele fez o mundo e todas as pessoas que há no mundo? — Se Deus fez o mundo e as pessoas, Ele já nos largou, arrependido. — Não diga tamanho absurdo! Se Ele tivesse largado, tudo andava de pernas para o ar. — E não anda?

— Paciência. Pode ser que um dia vosmecê mude. Deus é grande. — E o mato é maior, padre. É o que esses caboclos aprendem na luta dura desde pequeninhos. Não podem confiar em Deus e ficar parados. Quem fizer isso acaba degolado ou furado de bala.

— O melhor mesmo é vosmecê ir embora de Santa Fé o quanto antes. — Por quê? — Porque sim. — Que é que há contra mim? Ricardo hesitou por um instante, acariciou nervosamente o cabo da faca e disse: — Vosmecê não tem o nosso jeito. Sou um homem muito vivido e vejo logo quando uma pessoa pode se dar aqui e quando não pode.

— Conheço um homem até pela maneira como ele anda vestido. Esse seu lenço vermelho é um sinal de fanfarronice.

— Nestes papéis, coronel. Com licença de vosmecê, aqui está a minha fé de ofício. Tirou um rolo de papéis de dentro da túnica e apresentou-os ao estancieiro, que o capitão tirou do bolso das bombachas um estojo preto e dramaticamente apresentou-o ao outro: — E se isto também pode dizer alguma coisa em meu favor... — Que é isso? — Faça o obséquio de abrir. Ricardo Amaral tomou do estojo, com um pouco de má vontade, abriu-o e viu contra um fundo de veludo roxo uma medalha. Reconheceu a cruz da Ordem dos Militares. Não pôde esconder sua surpresa, e seu rosto iluminou-se de repente, como se a condecoração irradiasse luz.

Eram cópias de ordens do dia de diversos generais que Ricardo Amaral conhecia e nelas havia elogios ao cap. Rodrigo Severo Cambará pelo seu comportamento em ação.

— Sempre desconfiei de homem que toca violão.

Havia nele qualquer coisa de lerdo e descansado, como se de tanto carretear ele tivesse tomado o jeito dos bois.

Às vezes ficava irritado com Paula, porque ela não era nova, bonita e limpa como Bibiana. A chinoca continuava a deixar-se usar num silêncio submisso e sempre assustado.

Porque sempre lhe parecera que o único amor digno dum homem era esse que apenas pede cama. O amor de fazer ou cantar versos e mandar flores, esse amor de doer no peito, de dar saudade era amor de homem fraco.

Para a Igreja, os litorâneos, os habitantes de lugares como Porto Alegre, Viamão, Rio Grande e Pelotas, ofereciam uma seara mais rica e segura que a de outras zonas da Província. A Igreja Católica precisava de estabilidade e havia nessas cidades, vilas e povoados uma hierarquia nítida — nobreza, clero e povo —, uma divisão muito conveniente ao trabalho de evangelização. Quanto às populações das estâncias e charqueadas, o problema era diferente e infinitamente mais complicado. Aquela vida agreste e livre convidava à violência, à arbitrariedade e à insubmissão. As charqueadas eram focos de banditismo. O trabalho das estâncias como que nivelava o patrão ao peão e ao escravo.

Muitas vezes o estancieiro saía a camperear ombro a ombro com aqueles numa faina igualizadora que oferecia certos perigos, pois criava o risco de negros e caboclos quererem gozar das mesmas prerrogativas que seus senhores.

O pe. Lara sabia que todos os homens tinham sido criados à imagem e semelhança do Senhor. Mas reconhecia também que, para maior facilidade e eficiência do trabalho dos sacerdotes de Deus na Terra, era necessário que houvesse ordem, um sentido de hierarquia, um escalonamento nítido da sociedade. Porque a desordem era inimiga da religião, e se os homens não reconhecessem nenhum princípio de autoridade na vida temporal, como haviam de reconhecê-lo na vida espiritual?

Por outro lado, estava também convencido de que todas as ideias de liberdade e igualdade traziam no seu âmago sementes de ateísmo e anarquia, tanto que as conspirações republicanas eram feitas em geral pela maçonaria.

Sabia que era uma espécie de tradição entre os Amarais fazer filhos nas escravas, produzir mulatos e mulatas, que por sua vez depois se cruzavam com brancos, índios ou pretos. Os brancos gostavam muito das índias. O padre ouvira dizer que as mulheres índias se entregavam aos índios por obrigação, aos brancos por interesse e aos negros por prazer.

E no tom de sua voz Rodrigo percebia um certo orgulho, como se ele estivesse sempre a pensar assim: sou um Amaral. Eu mando. Sou um Amaral. Eu mando.

D. Arminda chorava de mansinho e seus olhos estavam vermelhos e tristes. Ao pé da imagem de Nossa Senhora da Conceição ardia uma grande vela de cera que Bibiana mandara vir de Rio Pardo para pagar uma promessa... Os noivos foram morar numa casa de madeira que Juvenal ajudara Rodrigo a erguer à entrada do povoado, do lado nascente. 

Rodrigo gozou a sua noite de núpcias como quem, depois dum longo período de abstinência, saboreia um jantar especial, com churrasco gordo e bom vinho; mas não se tratava duma refeição comum, dessas em que a gente come em mangas de camisa, à vontade, mas sim duma ceia de cerimônia... por exemplo, no Paço do Governo, no meio de figurões, numa mesa com muitos candelabros e talheres de prata, louça fina e mulheres de maneiras fidalgas — uma ceia enfim em que o conviva do campo tem de refrear o apetite, comer devagar, evitando qualquer gesto que possa ocasionar a quebra dum copo, dum prato ou da etiqueta.

Para Pedro Terra água de cheiro, brincos, espelhos e enfeites eram coisas inúteis de “gente que não tem mais o que fazer”. Os seus ditados — que ele repetia sempre que havia oportunidade, como para que servissem de lição à filha — davam uma ideia de sua maneira de avaliar as pessoas e as coisas. “Mulher que muito ri não pode ser boa coisa.” “Primeiro a obrigação, depois a diversão.”

Bibiana como que se desmanchava aos poucos ante seus olhos sempre gulosos. A rigidez de suas carnes dera lugar a uma flacidez descorada e ela de repente como que se fizera mais adulta, mais mulher. E ele, que já não se podia entregar aos mesmos excessos amorosos — pois além de ser obrigado a cuidados especiais com a esposa já começava a achá-la menos atraente —, ficava irritado com a situação e agora já pensava em outras mulheres.

— Se vosmecê fosse o criador do mundo, como é que fazia as coisas e as pessoas? Rodrigo apanhou um seixo, fez pontaria numa árvore e arremessou-o, errando o alvo. — Se eu fosse dono do mundo, fazia algumas mudanças... — Por exemplo... — pediu o padre. — Acabava com essa história de trabalhar... — Sim, e depois? — Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana sofreu. É medonho. O vigário sorria. Aquelas palavras, partidas dum egoísta, não deixavam de ter seu valor. — E depois? — Dividia essas grandes sesmarias de homens como o coronel Amaral. — Dividia? Como? Pra quê? — Dividia e dava um pedaço pra cada peão, pra cada índio, pra cada negro. — Não vá me dizer que ia libertar os escravos... — E por que não? Acabava com a escravatura imediatamente.

— Cada qual luta a seu modo, meu filho. Cada qual luta por um ideal. Houve homens que lutaram para libertar o Brasil dos portugueses. — Mas os galegos estão aí mesmo — retorquiu Rodrigo. — Nas tropas os oficiais portugueses mandam mais que os brasileiros. No fundo a independência não mudou nada.

— Conheci muitos padres por esse mundo velho que tenho corrido. Eles nunca estão contra o governo. — A Igreja não é revolucionária — exclamou o vigário. — A Igreja não é lugar de conspirações. Ela representa o poder espiritual, que está acima, muito acima do temporal.

Quando vejo um negro que baixa a cabeça quando gritam com ele, ou quando vejo um escravo surrado, o sangue me ferve. Depois que vi certos negros brigando no nosso exército contra os castelhanos... Barbaridade!... se eles não são homens, então não sei quem é...

— Meu filho, aprenda uma coisa. Por que é que a Igreja tem sobrevivido através de todos estes séculos? Por quê? Passam os reis, os conquistadores, os generais, os filósofos... passa tudo. Mas a Igreja fica. Alguns pensam que é porque ela é de origem divina. — Piscou um olho e pegou na fralda da camisa do outro. — Mas eu acho, e Deus me perdoe a irreverência, que é um pouco porque nós os sacerdotes somos realistas. Realistas, está ouvindo? Vosmecê sabe o que é um realista? — Um homem do lado do rei?

Rodrigo ficou junto da porta da rua olhando a noite, com um desejo de montar a cavalo e sair para o campo. Santa Fé era triste. Havia ali poucas diversões. A vila mais próxima, Cruz Alta, ficava muito longe... Abriu a boca num bocejo. E de repente — quase num susto — sentiu-se mais gordo, menos enérgico, um pouco molenga. Fazia tempo que não brigava, que não se movimentava. Aquela vida de balcão, que lhe enferrujava os membros, era de matar um cristão de aborrecimento. Por que se tinha ele metido naquilo? Por quê?

Bibiana ficou triste, mas não disse nada. Sua tristeza entretanto não durou, porque começou a entreter-se com a filha, que era ainda mais bonita que Bolívar e tinha os olhos azuis.

O melhor que ela tinha a fazer era fingir que não sabia de nada. Contanto que ele não fosse embora, que ela pudesse tê-lo a seu lado — contanto que ele continuasse a ser o seu marido, tudo estava bem.

De outra feita viu dois homens que em pleno campo atacavam um viajante. Rodrigo não conhecia nenhum deles, mas achou que não podia passar de largo. "Dois contra um é covardia!", gritou. Saltou do cavalo, puxou a adaga e entrou na luta. Voltou para casa trazendo o desconhecido que livrara dos assaltantes. Estavam ambos com as mãos e o rosto cheios de talhos de faca. Chegaram sangrando mas sorrindo, recordando a briga e dando grandes risadas. Fecharam-se na sala da venda e tomaram juntos uma bebedeira.

Um fogo ardia no peito de Rodrigo, pondo-lhe um formigueiro em todo o corpo. Era uma sensação de angústia, um desejo de dar pontapés, quebrar cadeiras, furar sacos de farinha, esmagar os vidros de remédio e sair dizendo nomes a torto e a direito. Quando o caboclo lhe pedira “uma réstia de cebola”, ele de repente vira o horror, o absurdo da vida que levava.

“Capitão! Onde está o capitão?” Cabeças se voltaram para todos os lados, procurando. Rodrigo, porém, não aparecia. “Por onde andará esse diacho?”, perguntou o vigário a si mesmo. Ninguém sabia. Decerto está na casa da china — refletiu o padre com melancolia e uma sombra de remorso. Tinha consciência de haver contribuído para a desgraça de Bibiana. Não podia compreender como um homem branco e limpo pudesse deixar-se enfeitiçar por uma rapariga que pouco faltava para ser mulata.

Nunca em toda a sua vida ele dormira com uma mulher tão loura, tão branca e tão limpa.

Dizia-se que quem realmente mandava no governo era o irmão do presidente, o juiz de direito de Porto Alegre, um homem que os liberais acusavam de retrógrado, vingativo e autoritário. Todos haviam recebido o novo presidente com simpatias e esperanças, mas ao cabo de pouco tempo ele pusera as unhas de fora: começara a perseguir os liberais e a encher as cadeias de inimigos políticos.

Quando o povo perde o sentido de disciplina e de ordem, quando começa a desrespeitar a autoridade, então é porque o desastre está iminente... O pior de tudo era que, como sempre, a conspiração se fazia na maçonaria.

— E onde é que eles metem o dinheiro do imposto? — perguntou um dos homens que escutavam Juvenal. — Metem no rabo desses caramurus do inferno! — respondeu, azedo, um velhote de chiripá seboso. Os outros o miraram de soslaio sem dizer nada. — Com tudo isso que pagamos — disse Chico Pinto —, não temos nem escolas pros nossos filhos.

Mas me dá raiva de ver que estamos sustentando o luxo da Corte. O nosso dinheirinho é pra encher a barriga desses condes, duques e barões de meia-pataca!

O pe. Lara sabia como era custoso obter informações certas. As pessoas dificilmente contavam as coisas direito. Mentiam por vício, por prazer ou então alteravam os fatos por causa de suas paixões. Cenas da vida cotidiana que se tinham passado sob o seu nariz, ali mesmo na praça de Santa Fé, eram depois relatadas na venda do Nicolau duma maneira completamente diferente. Como era então que a gente podia ter confiança na história?

Queria vê-lo mais uma vez, só uma vez. Deus não ia ser tão mau que não lhe permitisse essa alegria. Ela já nem ousava pedir o impossível: que a guerra terminasse e Rodrigo voltasse para casa. Isso era demais. Bibiana sabia que as coisas boas nunca aconteciam. Por isso nem pedia.

— Mas não há nenhum desdouro. Isto é uma guerra entre irmãos. — São as mais brabas, padre, são as mais brabas.

— Era um homem impossível.

3.7.17

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Notas do subsolo. Rio de Janeiro: L&PM, 2008.

Parte I – O Subsolo

Antes eu trabalhava no serviço público.

Fui um funcionário cruel. Era grosseiro e encontrava prazer nisso.

Eu menti antes, quando disse que era um funcionário cruel. Menti de raiva.

Raiva como característica da pessoa frustrada, deslocada, que passa a vida inteira desempenhando funções que preferia não estar desempenhando. Relacionar com Marx.

Agora vivo no meu canto, provocando a mim mesmo com a desculpa rancorosa e inútil de que o homem inteligente não pode seriamente se tornar nada, apenas o tolo o faz. Sim, senhores, o homem do século XIX que possui inteligência tem obrigação moral de ser uma pessoa sem caráter; já um homem com caráter, um homem de ação, é de preferência um ser limitado.

Por que motivo, nos exatos minutos em que eu era mais capaz de perceber todas as sutilezas “de tudo o que é belo e sublime”[3], como se costumava dizer aqui numa certa época, como que propositalmente eu não as percebia e cometia atos tão indecorosos, atos tais que... bem, resumindo, atos que talvez todos pratiquem, mas que, como que de propósito, aconteciam comigo exatamente no momento em que eu mais tinha consciência de que não se deve absolutamente praticá-los? Quanto mais consciência eu tinha do bem e de todo esse “belo e sublime”, mais afundava no meu lodo e mais capaz me tornava de atolar-me nele completamente. Mas a característica mais importante era que parecia que não era por acaso que isso acontecia comigo, que era para ser assim mesmo. Como se isso fosse o meu estado mais normal e de maneira nenhuma uma doença ou avaria, o que, finalmente, tirou-me a vontade de lutar contra esse defeito.

Por que ele agia de uma maneira diferente daqui gostaria de agir?
Relacionar com Durkheim e a moral que se impõe.

Para eles, o muro não significa desvio, como, por exemplo, para nós, seres pensantes e, conseqüentemente, inertes; não é um pretexto para voltar atrás, pretexto em que pessoas como nós geralmente não acreditam, mas que sempre ficam muito felizes quando o encontram. Não, é com toda sinceridade que eles se dão por vencidos. O muro possui para eles algo que acalma, que soluciona a situação do ponto de vista moral, e é definitivo.

O muro aqui pode ser entendido como lei ou como dogma que para os pensantes pode ser um empecilho, mas que são um alívio para os medíocres.

Mas é precisamente nesse frio e asqueroso estado de semidesespero e semicrença, nesse consciente e angustiado sepultamento em vida de si mesmo no subsolo durante quarenta anos, nessa falta de saída de sua situação, que ele mesmo se empenhara em criar e que é, contudo, duvidosa, em todo esse veneno de desejos não satisfeitos que ele engoliu.

Desejos não satisfeitos: perda da das rédeas sobre a própria vida.

Esses senhores, diante da impossibilidade eles imediatamente ficam resignados. A impossibilidade é o mesmo que um muro de pedra? Mas que tipo de muro de pedra? Bem, evidentemente, são as leis da natureza, as conclusões das ciências naturais, a matemática. Se alguém lhe prova, por exemplo, que você descende do macaco, não adianta fazer caretas, aceite-o.

Crítica à inquestionabilidade da ciência.

Que tenho a ver com as leis da natureza e com a aritmética, se essas leis e dois e dois são quatro, por alguma razão, não me agradam? Evidentemente, não quebrarei esse muro com a testa, se realmente não tiver forças para isso, mas nem assim vou resignar-me somente porque encontrei um muro e não tive forças para rompê-lo.

Ó, cúmulo do absurdo! Muito melhor é compreender tudo, perceber tudo, todas as impossibilidades e muros de pedra; não se resignar diante de nenhuma dessas

É a pura verdade. Observem-se melhor, senhores, e verão que é assim. Eu fantasiava peripécias e criava uma vida para mim, ao menos para viver, de alguma forma. Quantas vezes eu ficava ofendido, sem nenhum motivo real, simplesmente porque queria?

Na ausência de uma vida real, vivia uma vida inventada.

E tudo isso por tédio, senhores, tudo por tédio; fui esmagado pela inércia. Pois o produto direto, imediato e legítimo da consciência é a inércia, isto é, o ficar-sentado-de-braços-cruzados conscientemente. Já mencionei isso antes. Repito, repito insistentemente: todos os indivíduos e homens de ação diretos são ativos precisamente porque são obtusos e limitados. Como isso se explica? Da seguinte maneira: em conseqüência de sua tacanhez, tomam os motivos mais próximos e secundários como se fossem os motivos originais e, assim, eles se convencem mais rápida e facilmente do que as outras pessoas de que encontraram um fundamento irrefutável para a sua causa, e então ficam tranqüilos. Isso é o mais importante. Pois, para se começar a agir, é preciso que antes se esteja completamente calmo e totalmente livre de dúvidas.

A minha maldade, novamente em conseqüência dessas malditas leis da consciência, está sujeita à decomposição química. Quando você olha, o objeto já volatilizou, os motivos evaporaram, é impossível encontrar o culpado, a ofensa deixa de ser ofensa e passa a ser uma fatalidade, algo como uma dor de dente, em que não há culpados.

Ah, se eu não fizesse nada unicamente por preguiça! Meu Deus, como eu me respeitaria! E me respeitaria precisamente porque teria a capacidade de possuir ao menos a preguiça; pelo menos eu teria uma característica quase positiva, que eu mesmo teria a certeza de possuir. Pergunta: quem é ele? Resposta: um preguiçoso. Seria mais do que agradável ouvir tal coisa a meu respeito. Mostraria que fui definido positivamente, que há o que dizer sobre mim. “Um preguiçoso!” – isto é de fato um título, uma função, é uma carreira, senhores. Não brinquem com isso, é a pura verdade. Eu seria, então, por direito, membro do clube mais importante, e minha única ocupação seria passar todo o tempo me respeitando.

Crítica à ética do trabalho.

Em primeiro lugar, quando foi que, no decorrer de milênios, o homem agiu movido apenas pelos próprios interesses? Que fazer com os milhões de fatos que demonstram que conscientemente, isto é, compreendendo perfeitamente suas verdadeiras vantagens, pessoas deixaram-nas de lado e lançaram-se por outro caminho, ao acaso, arriscando-se, sem que ninguém ou nada as obrigasse a isso, como se simplesmente não quisessem exatamente o caminho que lhes fora indicado e teimosa e voluntariosamente abriram outro, mais difícil, absurdo, tateando no escuro quase às cegas? Significa, pois, que para elas essa teimosia e esse voluntarismo eram de fato mais agradáveis do que qualquer vantagem pessoal...

Critica a objetividade e a racionalidade.

Pois os senhores, ao que eu saiba, compuseram toda a sua lista de vantagens humanas fazendo uma média de valores estatísticos e de fórmulas da ciência econômica. De acordo com as suas conclusões, são elas o bem-estar, a riqueza, a liberdade, a tranqüilidade, e assim por diante. De modo que, por exemplo, o homem que clara e deliberadamente rejeitasse toda essa lista seria, na sua opinião, e na minha também, é claro, um obscurantista ou um ser completamente louco, não é isso?

Eu, por exemplo, tenho um amigo... Mas vejam só! Ele é amigo dos senhores também; e de quem, de quem ele não é amigo?! Ao se preparar para realizar uma ação, esse senhor começará por lhes explicar, de maneira clara e pomposa, como precisamente ele deve agir para estar de acordo com as leis da razão e da verdade. Os senhores estão convencidos de que, então, o homem deixará voluntariamente de errar, e a contragosto, por assim dizer, não irá querer opor sua vontade aos seus interesses normais. E mais: nesse tempo, dizem os senhores, a própria ciência vai ensinar ao homem (embora isso já seja um luxo, na minha opinião) que ele, na verdade, não possui nem vontade, nem caprichos, que, por sinal, nunca os teve, e que ele mesmo não passa de alguma coisa parecida com uma tecla de piano ou um pedal de órgão.

O homem que se encaixa numa ordem de valores pré-estabelecidos. O homem que é uma peça numa máquina.

Crítica ao homem sem desejo pessoal, sem vontade própria, totalmente submisso à moral estabelecida

E tudo isso por um motivo insignificante que não valeria a pena mencionar: precisamente pelo fato de que o homem, invariavelmente e em todo lugar, quem quer que ele seja, sempre gostou de fazer o que quis, e não como mandam a razão e o interesse próprio; ele, inclusive, pode querer algo contra seus próprios interesses, e às vezes até deve indubitavelmente querê-lo (isto já é idéia minha). Sua vontade livre, um capricho seu, mesmo que seja o capricho mais estranho, uma fantasia sua, exacerbada às vezes até a loucura – eis a vantagem que é omitida, a vantagem mais vantajosa, que não se submete a nenhuma classificação e que manda para o diabo constantemente todos os sistemas e teorias. E de onde esses sabichões tiraram que o homem necessita não sei de que vontade normal, virtuosa?

O que o homem precisa é somente de uma vontade independente, custe ela o que custar e não importa aonde possa conduzir.

Nesse tempo – isso tudo os senhores é que dizem –, surgirão novas relações econômicas, que serão também completamente calculadas, e com precisão matemática, de modo que, num piscar de olhos, todo tipo de questões deixarão de existir, precisamente porque alguém já terá encontrado todo tipo de respostas para elas.

Na medida em que se pauta a vida social pelos valores da ciência e se sabe que a ciência evolui diariamente, mudando seus conceitos, a volatilidade dos valores é imensa, não permite a consolidação de uma moral permanente.

E então, senhores, que tal dar um pontapé em todo esse bom senso e mandar esses logaritmos para o diabo para que possamos novamente viver segundo a nossa vontade idiota?

Quem vai querer ter vontade de acordo com uma tabela? E ainda: no mesmo instante o homem se transformará num pedal de órgão ou em algo no gênero; porque o que é esse homem sem desejos, sem vontade, sem seu próprio querer, senão um pedal de órgão?

O homem visto como coisa, como ferramenta, como um instrumento.

Porque se, por exemplo, um dia me provarem com cálculos que se eu fiz um gesto obsceno com o dedo para alguém isso se deu precisamente porque não poderia deixar de fazê-lo, e porque era exatamente aquele dedo que eu deveria mostrar, então o que restará de livre em mim, especialmente se sou uma pessoa instruída e com um curso completo de ciência em algum lugar? Pois nesse caso eu vou poder calcular antecipadamente toda a minha vida futura por um período de trinta anos; em síntese, se isso for implantado, não nos restará nada a fazer; de todo modo, teremos de aceitar.

Crítica da moral enquanto ferramenta de censura que diminui a liberdade de ação do homem.

Vejam os senhores: a razão é uma coisa boa, sem dúvida, mas razão é apenas razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem; já a vontade, esta é a manifestação da vida como um todo, ou melhor, de toda a vida humana, aí incluindo-se a razão e todas as formas de se coçar. E, mesmo que a nossa vida pareça às vezes bem ruinzinha do ponto de vista acima, ela é vida, apesar de tudo, e não apenas a extração de uma raiz quadrada.

Que sabe a razão? Ela sabe apenas aquilo que conseguiu conhecer (outras coisas, provavelmente, nunca saberá; isso pode não consolar, mas por que não dizê-lo?); já a natureza humana, esta age como um todo, com tudo o que possui, seja consciente, seja inconsciente – e, mesmo mentindo, está vivendo.

Toda a questão humana, creio, resume-se, na realidade, em o homem provar constantemente para si mesmo que ele é um homem, e não uma tecla! Ainda que arriscando sua pele, ele tentará prová-lo; ainda que se comporte como um troglodita, ele tentará prová-lo.

Tenho, senhores, algumas questões que me atormentam; resolvam-nas para mim. Por exemplo, os senhores querem fazer com que o homem desaprenda hábitos antigos e desejam corrigir sua vontade, de acordo com as exigências da ciência e do bom senso. Mas como os senhores sabem que não só é possível como também necessário mudar assim o homem? De onde os senhores tiraram essa conclusão de que é tão necessário corrigir a vontade humana?

Por que os senhores têm tanta certeza de que realmente é sempre vantajoso para o homem e constitui uma lei para toda a humanidade não contradizer as vantagens verdadeiras, normais, aquelas garantidas por argumentos da razão e da aritmética? Pois, por enquanto, isso é apenas uma suposição dos senhores.

Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, goste apenas do processo de procurar atingir um objetivo, e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte.

Ele ama o processo de conseguir, mas atingir mesmo, nem tanto, e isso, claro está, é terrivelmente engraçado.

E por que os senhores estão assim tão firme e solenemente convencidos de que apenas o que é normal e positivo, ou seja, o bem-estar, é vantajoso para o homem?

Quanto à minha opinião pessoal, penso que amar apenas o bem-estar é, de certo modo, até indecente. Seja isso bom ou não, o fato é que, às vezes, quebrar alguma coisa é também muito agradável.

Estou defendendo... o meu capricho, e que ele me seja garantido, quando necessário.

Conclusão final, senhores: é melhor não fazer nada! É melhor a inércia consciente! Pois, então, viva !

É preferível a inércia consciente do que se submeter a um conjunto de desejos que não são os seus.

Parte II - A propósito da neve úmida

Todos me abandonaram e fiquei ali esmagado e reduzido a nada. “Ó Senhor, será para mim esta sociedade?”, pensava eu.

Trudoliúbov levantou a taça e os outros o acompanharam, menos eu. – À sua saúde e boa viagem! – exclamou Trudoliúbov para Zverkov. – Aos nossos velhos tempos, senhores, e ao nosso futuro, hurra! Todos beberam e rodearam Zverkov para beijá-lo. Não me movi; a taça cheia continuava intacta na minha frente.

Incapacidade de se submeter ao teatro das convenções sociais.

Eu também não resisti e solucei de uma maneira como nunca havia soluçado antes... – Não me permitem... Eu não posso ser... bom!

Durante o trabalho na repartição, procurava inclusive não olhar para ninguém e percebia nitidamente que meus colegas não só me consideravam excêntrico como também – assim me parecia constantemente – olhavam-me com uma certa repulsa.

Sensação de não pertencimento.

Entregava-me com amor à medianidade geral e com toda a alma temia qualquer sinal de excentricidade em mim. Mas como eu poderia ter resistido? Eu era evoluído de uma maneira doentia, como deve ser o homem evoluído do nosso tempo. Já eles, eram todos obtusos e parecidos uns com os outros, como um rebanho de carneiros.

Homogeinização da sociedade

Eu saía para a libertinagem à noite, secretamente, com medo e com sensação de sujeira, sentindo uma vergonha que não me abandonava nem nos instantes mais repugnantes, como uma maldição. Já então eu trazia na alma o meu subsolo. Sentia um medo terrível de ser visto e reconhecido

Subsolo como metáfora para os desejos inconfessáveis do autor, desejos que talvez não fossem bem vistos pela moral da sociedade.

Só Deus sabe o que eu não daria naquele momento por uma briga de verdade, mais correta, mais decente, mais, por assim dizer, literária! Trataram-me como se eu fosse uma mosca.

Nesse caso, a briga serve como uma forma de se sentir vivo, de ser notado. Ser ignorado é que é a pior parte. O problema da insignificância.

Uma sensação insistente e concreta, de que eu era uma mosca no meio de toda aquela gente, uma reles mosca desnecessária – mais inteligente, mais culta e mais nobre do que todos eles, evidentemente –, porém, uma mosca que cede sempre diante de todos, que todos humilham e ofendem.

Quando se tratava de alguém como eu, ou mesmo um pouco melhor, ele simplesmente o esmagava; caminhava diretamente para essa pessoa, como se na sua frente houvesse um espaço vazio, e nunca cedia passagem.

Torturava-me ver que nem mesmo na rua eu conseguia ser igual a ele. “Por que você é o primeiro a se desviar?”, implicava eu comigo mesmo, numa histeria furiosa, quando me acontecia acordar antes das três da manhã. “Por que tem de ser você e não ele? Pois não existe lei para isso, isso não está escrito em nenhum lugar. Então, que haja igualdade, como acontece geralmente quando pessoas educadas se encontram: ele cede até a metade, você também cede até a metade, e os dois passam, respeitando-se mutuamente”.

Mas confesso que, depois de inúmeras tentativas, quase entrei em desespero: simplesmente não havia meio de darmos o encontrão! Com todos os preparativos que eu fazia, com toda a determinação que colocava na coisa, parecia que logo-logo haveríamos de nos esbarrar – mas, novamente, eu cedia o caminho e ele passava sem me notar.

Uma forma de agir intuitiva que se impõe ao personagem, mesmo contra sua vontade racional.

De repente, a três passos do meu inimigo, repentinamente me decidi, fechei os olhos e – nós nos chocamos fortemente, ombro contra ombro! Eu não cedi nem uma polegada e passei por ele como um igual! Ele nem ao menos se virou e fingiu que não notara, mas foi somente fingimento, estou certo disso. Até hoje tenho certeza disso! Claro está que eu sofri mais, pois ele era mais forte, mas não era isso que importava. O importante foi que consegui o meu objetivo, mantive a minha dignidade, não cedi nem um passo e, à vista de todos, me comportei com ele como uma pessoa do mesmo nível social.

Mais tarde, ouvi narrativas sobre seus sucessos na caserna e como tenente, e também sobre suas farras. Depois ouvi outros boatos sobre seus avanços na carreira. Ele já não me cumprimentava na rua e eu desconfiava de que ele tinha medo de se comprometer se mostrasse conhecer alguém tão insignificante como eu.

Aos dezesseis anos, eu os observava carrancudo e me espantava com eles; já naquela época eu ficava admirado com a mesquinhez dos seus pensamentos, com as coisas idiotas com que se ocupavam, com seus jogos, suas conversas. Havia tantas coisas importantes que eles não entendiam, tantos assuntos empolgantes e apaixonantes que não despertavam o interesse deles, que sem querer eu comecei a me achar superior a eles.

Eles achavam que ser inteligente era obter um cargo elevado;

Vou ficar sentado e beber, porque para mim os senhores não passam de fantoches, fantoches que não existem.

Desprezo por uma sociedade sem valores, ou melhor, uma sociedade cujos valores (pré-fabricados) o protagonista despreza, tem asco.

– Bem, o senhor... é que o senhor fala como se estivesse lendo um livro – disse ela, e uma nota zombeteira pareceu soar novamente em sua voz.

Uma sociedade em que ser culto não é valorizado, pelo contrário, parece ridículo .

O camponês mais desgraçado, quando faz um contrato de trabalho, não se escraviza por inteiro e, além disso, sabe que aquilo tem um prazo. E você, qual é o seu prazo? Reflita apenas: o que você está dando aqui, o que está entregando? Sua alma, a alma que não lhe pertence, você a está entregando junto com o seu corpo! Seu amor, você o entrega a qualquer bêbado para que ele o profane.

Comparação entre prostituição e o trabalho de um camponês

Eu sabia que meu discurso era pesado, artificial, livresco mesmo. Em suma: de outra forma eu não sabia me expressar, a não ser “como num livro”.

O personagem se sente tão estrangeiro nessa sociedade que até o seu modo de falar parece um outro idioma, o idioma livresco.

Em primeiro lugar, eu já não tinha capacidade de amar, porque, repito, amar para mim significava tiranizar e dominar moralmente.

Agora, às vezes penso que o amor, na realidade, consiste no direito que o objeto do amor voluntariamente concede de ser tiranizado.

“Tranqüilidade” era o que eu queria; queria ficar sozinho no subsolo. A “vida viva” me sufocava tanto, devido à minha falta de costume, que até respirar estava difícil.

Todos nos desacostumamos da vida, uns mais, outros menos, e nos desacostumamos ao ponto de sentirmos às vezes uma certa repugnância pela verdadeira “vida viva”

Deixem-nos sós, sem livros, e imediatamente ficaremos confusos, perdidos – não saberemos a quem nos unir, o que devemos apoiar; o que amar e o que odiar; o que respeitar e o que desprezar. Até mesmo nos é difícil ser gente – gente com seu próprio e verdadeiro corpo e sangue; sentimos vergonha disso, achamos que é um demérito e nos esforçamos para ser uma espécie inexistente de homens em geral. Somos natimortos.

Estraguei minha vida apodrecendo moralmente num canto, com as deficiências do ambiente, desabituando-me da vida e com meu ódio vaidoso no subsol

Pois chegamos ao ponto de quase achar que a verdadeira “vida viva” é um trabalho, quase um emprego, e todos nós no íntimo pensamos que nos livros é melhor.

Pois bem, façam uma experiência, dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem as mãos de qualquer um de nós, ampliem nossa esfera de ação, relaxem a tutela e nós... eu lhes asseguro: nós imediatamente pediremos a volta da tutela.

O homem precisa de regras, não consegue viver sem elas.

E no que me diz respeito, eu apenas levei às últimas conseqüências na minha vida aquilo que os senhores não tiveram coragem de levar nem à metade, e ainda por cima acharam que sua covardia era bom senso, consolando-se e enganando a si próprios com isso. De modo que talvez eu esteja mais “vivo” que os senhores.